"Jogo da Verdade! Diretor: david Anspaugh Ano: 1995 País: Estados Unidos, Inglaterra Gênero: Comédia, Drama, Romance Título Original: Moonlight & Valentino
Vovôs e vovós adoram contar histórias aos netos. Pode ser sobre aquele primo que aprontava na juventude, sobre a infância de nossos pais e, principalmente, como as coisas eram diferentes. Hora ou outra contam o mesmo caso várias vezes, trocam datas e fatos, mas são palavras tão cheias de carinho, que esses detalhes pouco importam. Foi depois de uma destas histórias que Mariazinha, que também poderia ser Joãozinho, perto de completar 6 anos, definiu as cores que levaria no coração pelo resto da vida. Paparicada pelo avô enquanto seus pais trabalhavam, ouviu o seguinte relato.
Era uma vez um time de futebol chamado Bahia que usava camisas de três cores em seus jogos. As mesmas do estado em que moramos: azul, vermelho e branco. E como esse time nasceu para vencer! Os títulos já vieram nos primeiros anos e, lá nos anos 40, quando eu ainda era um moleque, vi o Bahia conquistar nada menos do que seis dos dez títulos baianos disputados. "Vixe vovô, lá vem você com mais uma história velha", disse a garotinha ao avô, que apenas deu risada e continuou.
Ela ouviu que a coisa não foi diferente na década seguinte, mas que foi na virada dela para os anos 60 que a história ganhou ares de conto de fadas. O avô de Mariazinha, então, falou de Pelé. Descreveu em dribles como aquele garoto maravilhou, encantou e deixou um país inteiro aos seus pés, quando tinha apenas 17 anos, na conquista da Copa de 1958. "Eu já ouvi falarem que ele foi o melhor jogador do mundo! É verdade, vovô?", perguntou Mariazinha. "Querida, no momento em que a bola chegava ao pé de Pelé, o futebol se transformava em poesia", respondeu o avô, citando o cineasta italiano Pier-Paolo Pasoloni. "Mas o que isso tem a ver com o Bahia, vovô?", perguntou a menina. Com um sorriso no rosto e um brilho no olhar, o avô então lhe contou: "Pois o Bahia, este time para o qual eu e seu pai torcemos, chegou a uma grande final justamente contra o time de Pelé, 50 anos atrás. Ninguém acreditava que o nosso tricolor pudesse ganhar. O campeonato era a primeira competição oficial com clubes de todo o Brasil, mas sabe o que aconteceu? O Bahia ganhou, meu bem!".
Foi quando a porta se abriu e o pai da garotinha entrou em casa. Na urgência típica da sua idade, Mariazinha pulou do colo do avô, puxou o pai pela mão para um canto e falou: "Papai, você já me disse que vovô está velhinho e que às vezes ele fica meio broco, mas acho que hoje ele pirou de vez. Me contou uma história de que o Bahia venceu o time de Pelé, esse que todo mundo diz que é o rei do futebol. Tá maluquinho ele, né?". Achando graça do relato da filha, o pai, feliz, lhe disse que aquilo tudo tinha sido realmente verdade. Surpresa, a pequena correu para o quarto e conferiu aliviada no fundo da gaveta que a camisa de três cores que o avô havia lhe dado, e ela nunca tinha dado muito atenção, estava lá. Sem ainda ter consciência daquilo, virara Bahia.
Clara Albuquerque Coluna publicada no jornal Correio* dia 28/03/10
"Simplesmente Feliz" Direção: Mike Leigh Ano: 2008 País: Inglaterra Gênero: Comédia, Drama Título Original: Happy-Go-Lucky
Escreveu o consagrado jornalista uruguaio Eduardo Galeano, no livro Futebol ao Sol e Sombra (L&PM, 1995), sobre um jogo entre Botafogo e Flamengo de 1943: “Heleno estava de costas para o arco. A bola chegou lá de cima. Ele parou-a com o peito e se voltou sem deixá-la cair. Com o corpo arqueado e a bola no peito, enfrentou a situação. Entre o gol e ele, uma multidão. Na área do Flamengo havia mais gente que em todo o Brasil. Se a bola caísse no chão, estava perdido. E então Heleno pôs-se a caminhar, sempre curvado para trás, e com a bola no peito atravessou tranquilamente as linhas inimigas. Ninguém podia tirá-la sem fazer falta, e estavam na zona de perigo. Quando chegou às portas do gol, Heleno endireitou o corpo. A bola deslizou até seus pés. E ele arrematou”.
Você consegue imaginar essa cena acontecendo nos dias de hoje? Muito difícil. O futebol burocrático tomou conta dos nossos campos de futebol. De repente, todos viraram entidades que não podem ser tratadas por adversários que toquem de calcanhar, que apliquem um belo de um chapéu, que comemorem com uma dança, que saibam pedalar. Como se não bastasse a papelada da vida, que em algum momento todos nós temos que preencher, para conseguir as autorizações do dia a dia da nossa civilização, temos que aguentar um futebol chato de tabelião. Sim, porque tem alguns vários exemplos por aí que deixam claro: é proibido exercer o futebol alegria.
Agora se tem algo que se destaque nessa mesmice toda é o Santos. E que me desculpem os chatos de plantão, mas o time que vem encantando o país não precisa solicitar autorização aos deuses do futebol para fazer o que faz. Pois tratem de aprender, senhores ilustríssimos sicranos e beltranos do futebol: se divertir numa partida de futebol não é desrespeito.
Não falo necessariamente do melhor futebol, do mais forte e do mais técnico no Brasil. A graça aqui está no ar de brincadeira, no tom de graça quase transgressor estampado na cara dos meninos da Vila. E o melhor de tudo é que você não precisa ser santista ou até mesmo um apaixonado entendido de futebol para se divertir numa partida-espetáculo destes garotos. Tenho absoluta certeza que qualquer pessoa daria boas risadas no clássico entre Santos 3x4 Palmeiras realizado no domingo passado. Que os jogadores do meu time do coração não me ouçam, mas, mesmo ganhando, eles não arrancam os risos que Robinho, Neymar, Ganso e cia me proporcionam a cada jogo. Pois o caso aqui, minhas amigas e amigos, não é a paixão pelas cores, pelo hino, pela vitória ou pela história de um clube (que cada um continue tendo o seu). O grande lance nestes dias sérios e sisudos de bola rolando, é a paixão pelo simples ato de jogar futebol. E uma dica: o único remédio para curar a dor de cotovelo nessa situação é responder na mesma medida, dentro de campo. Os torcedores agradecem.
O Grande Desfile Direção: King Vidor Ano: 1925 País: Estados Unidos Gênero: Drama, Guerra, Romance Título Original: The Big Parade
Eu não sou escrava, mas acompanho razoavelmente as novidades da moda. Assim como alguém que não acompanha o dia a dia do futebol assiste a uma final de campeonato, vejo um lançamento do mundo fashion aqui ou acolá. E, nesses últimos dias, a quantidade de liquidações me chamou atenção. O motivo das vitrines recheadas de descontos é a chegada da nova coleção. Algo mais ou menos parecido com o que está acontecendo com os times no futebol. Ahn? Como assim? Já explico.
A Libertadores começou. E na competição, sem dúvidas a maior vitrine das Américas, cada clube desfila com o que tem de melhor. Alguns querem tirar completamente do estoque as lembranças da coleção, digo temporada, passada, enquanto outros tentam manter o sucesso das peças que viraram moda em 2009. E na perspectiva futebolística, nada pegou tanto na moda em 2009 quanto o Flamengo. Mas na Libertadores deste ano, o rubro-negro carioca espera lançar uma coleção no estilo retrô, inspirada em especial no ano de 1981, quando o Flamengo foi campeão pela primeira e única vez no torneio. As chances de sucesso são boas, mas dependem, mais do que gostaria a torcida, de um bom desfile de Adriano e Petkovic. Se os dois escorregarem na passarela, não acho que Vágner Love vira supermodel.
O Corinthians, apesar de não ter o modelo mais esbelto da competição, parece ser o estilista do momento. No ano de seu centenário, preparar uma coleção especial é quase uma obrigação. E as linhas de possibilidades da costura tática são muitas (e boas). Pra completar, se os principais destaques Ronaldo e Roberto Carlos mantiverem o fôlego durante todo percurso fashion (sem salto alto e meião, hein!), o Corinthians tem tudo para conseguir o posto de grife, quer dizer, campeão. E o Internacional? Em minha opinião, as últimas coleções do Internacional são maravilhosas quando vemos o croqui (rascunho desenhado das roupas, para os desligados em moda). Mas quando entram no corpo, e mais especificamente, em campo, não funcionam tão bem. O trunfo que pode mudar as linhas de acabamento dos dois últimos vice-campeonatos do time (Copa do Brasil e Brasileirão 2009) é justamente o costureiro no comando, o uruguaio Jorge Fossati.
Agora, se você quer ver alta-costura em campo, aposte no Cruzeiro. Não se engane pelo tropeço na estreia, quando o time perdeu para o Velez, da Argentina. O Cruzeiro é forte candidato a trazer uma coleção cheia de motivação remanescente da temporada 2009. E é justamente a manutenção da modelagem básica que pode trazer sucesso. Por fim, o quinto time na passarela é o São Paulo. Quase ninguém espera um desfile encantador, de fato. Na vitrine pela sétima vez consecutiva, um recorde entre os clubes brasileiros, o tricolor paulista vem com uma coleção no estilo básico: não é novidade, não é deslumbrante, mas, muitas vezes, é a única coisa que conseguimos vestir.
Coluna também publicada no jornal Correio* dia 21/02