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Os bêbados do lixo
por Diego Ludovice


Por: Diego Luduvice

‘Caroço de Pescoço' sabia apenas seu apelido quando chegou ao Boteco do Samuca por volta do meio-dia de domingo. Depois de recolher o dinheiro dos catadores de lixo da Narandiba, comemorava com um litro de cachaça destilada de barril, o final de um novo dia de trabalho no ‘sindicato dos bêbados', como é conhecido o grupo de catadores autônomos do bairro. Aproximou-se do botequim e chegou logo falando: "me dê um litro da boa, que os parceiros já estão de bico seco". O dono do estabelecimento, Samuel Rosário dos Santos, 41 anos, caiu na risada, mas se disse acostumado. Trabalhando há 22 anos com recicladores e pai de dois filhos, Samuel afirma: "saí da empresa, peguei o dinheiro da empresa e montei um mini mercadinho. Vendo e compro de tudo: televisão, rádio, bicicleta, capacete, carregador de celular, alumínio, bebidas e qualquer coisa que me dê lucro".
A população brasileira produz em média um quilo de lixo diariamente por pessoa, fruto de uma cultura cada vez mais consumista. Em Salvador, por exemplo, entre os resíduos coletados, segundo dados da Limpurb - Empresa de Limpeza Urbana de Salvador, apenas 5% é reciclado, enquanto o ideal seria 15% do total produzido. Na mesma proporção em que os entulhos crescem, aumenta o número de catadores, sejam eles autônomos ou vinculados às cooperativas. Os principais materiais recicláveis são papelão, garrafas pet, ferro e alumínio.
O dia-a-dia de um catador de lixo autônomo não é fácil. Acordam cedo para irem à busca do sustento da família e muitas vezes não têm o que comer pela manhã. Eles percorrem longas distâncias, como afirma Aristides Félix do Nascimento, mais conhecido por Ninja, 32 anos, há dez como reciclador: "Moro atrás do Hospital Roberto Santos, saio de casa e passo pelo Saboeiro, desço a ladeira do hospital, passo pela Narandiba e vou até o Cabula VI todos os dias".
O preconceito com os recicladores em Salvador é uma realidade, pelo fato de estarem sempre bebendo e usam a maior parte do dinheiro que ganham para comprar cachaça destilada. Mas essa visão deveria ser diferente, já que ajudam na limpeza dos bairros populares da cidade. Em Narandiba, dificilmente você encontra lixo na rua, pois os catadores autônomos recolhem todo material reciclável que vêem pela frente. Os preços variam de acordo com o material. Um quilo de papelão vale em média R$0,20, o de ferro R$0,25 e o alumínio, que já chegou a custar R$2,50, hoje não se encontra por mais de R$1,50.
Eles estão por toda parte e fundaram uma espécie de sindicato dos "bêbados do lixo". Um ajuda o outro quando não consegue dinheiro suficiente com o trabalho. Reúnem-se perto dos ferros-velho e cada um dá uma contribuição para comprar a destilada. Se acabar a cachaça, começam novamente a perambular pelas ruas em busca de mais lixo reciclável. "Trabalho há 30 anos com reciclagem. Cato tudo... garrafa, lata, ferro... cato tudo mesmo. Quando está bom tiro de 20 a 30 reais," afirma José Carlos Santos Silva, 43 anos, morador da Rótula do Juliano Moreira, na Narandiba.

COLETA SELETIVA A reciclagem é responsável pela diminuição dos impactos ambientais causados pelo lixo urbano, seja ela realizada por autônomos, cidadãos por conta própria ou cooperativas. No último levantamento oficial realizado em 2009 pela Limpurb, a capital baiana tinha 24 cooperativas de catadores de materiais reciclados e 790 cooperadores atuando.
Não existe nenhuma pesquisa que mostre a quantidade de catadores de rua independentes, mas estima-se que supere o número de recicladores vinculados a cooperativas. Em relação aos Pontos de Entrega Voluntária (PEVs), onde contam com quatro contêineres coloridos para coleta de vidro (verde), papel e papelão (azul), plástico (vermelho) e metal (amarelo), qualquer pessoa pode realizar a coleta seletiva nos 75 postos espalhados pela cidade.

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